"Eu gostaria de abraçar o mundo inteiro em uma rede de caridade"
António Frederico Ozanam

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Vida de Ozanam (IX)


Ozanam dita como se defender a fé de uma forma cristã

Na Presidência da Conferência Literária do Círculo Católico, Ozanam pronunciou, perante o Arcebispo, D. Afre, e a pedido deste, uma conferência sobre “Deveres Literários do Cristão”. Desencadeara-se uma luta na imprensa entre partidos políticos e grupos religiosos, com destempero de linguagem, em ambos os lados. Ozanam mostrou como deve o católico proceder nesses casos. O discurso teve imensa repercussão e provocou inesperada e violenta repulsa do jornal católico “Universo”, o que muito contristou Ozanam.

Na sua investida contra Ozanam o jornal o acusava de fujão da luta católica. No entanto, Ozanam apenas apontava o Evangelho “como roteiro para a defesa da fé, no duplo amor da verdade e da caridade, da misericórdia e da paz. Devíamos lamentar, e não injuriar os incrédulos. E aos ateus, não mortificá-los mas tentar convencê-los. E à brutalidade de seus ataques responder com a lição de uma polémica generosa”. O Arcebispo apoiou e aplaudiu Ozanam.
 Ozanam convoca a juventude aos retiros preparatórios de Comunhão Pascal

Aproveitando o convívio que o Circuito Católico propiciava, Ozanam convocava a juventude para os retiros preparatórios da Comunhão Pascal, inaugurados em 1842, em Notre Dame, pelo Padre Ravignan, um grande orador. As pregações acorriam mais de seis mil homens, a maioria estudantes.

Após a comunhão cantavam um Te Deum, que emocionava todo mundo. Ozanam, tendo Cristo no coração, procurava os pobres de sua Conferência para visitar aqueles outros Cristos. Terminava assim sua acção de graças.

Assembleia Geral Regulamentar reúne confrades para examinar o bem realizado e o bem por fazer

Apesar das ocupações como Professor e Jornalista, Ozanam dedicava suas horas disponíveis à Sociedade de S. Vicente de Paulo, tendo nela incluído seu irmão Carlos. Com grande alegria, participou em Fevereiro de 1842 de uma das quatro assembleias gerais regulamentares. O salão não comportava os 600 confrades “reunidos para examinar o bem realizado e avaliar o bem por fazer”. O Relatório lido anunciava a existência de 2.000 confrades em Paris e nas Províncias, assistindo 1.500 famílias.

“Uma só coisa nos poderá deter: a alteração do nosso espírito primitivo”

Noutra reunião, Ozanam encabeçava para a comunhão delegações de 25 Conferências de Paris. Os confrades receberam do Prefeito, ouvido o Arcebispo, 600 mil francos, enviados pelas Conferências de Lião para auxílio às famílias flageladas pelas enchentes.

O patriarca de Antioquia, que presidia a sessão, exclamou: “Eis a França tão caluniada! Eis sua mocidade tão desconhecida!” Falando aos confrades, Ozanam disse: “Uma só coisa nos poderá deter: a alteração do nosso espírito primitivo”

Ozanam conquista a cátedra efectiva na Sorbona
Ozanam era apenas substituto do professor Fauriel. Falecido este, ficaria sem a cadeira. Precisava ser nomeado efectivo. Mas havia oposição dos adversários molestados com as suas magníficas afirmações de fé difundidas por ele em suas lições. E ainda se apegavam à sua juventude. Mas o renome adquirido pelo jovem professor consagrou-lhe a nomeação por decisão unânime do Conselho Universitário. E, assim, em Novembro de 1844 ele conquistou a cátedra efectiva na Sorbona.


A vitória de Ozanam excitou a ala voltaireana da Sorbona, que procurava embaraçar-lhe as actividades universitárias já com picuinhas, já com indirectas à sua pessoa. Na entrada da sala de suas aulas colocaram os dizeres “Curso de Teologia”. Ozanam respondeu sorrindo: “Eu não tenho a honra de ser teólogo, mas tenho a felicidade de ser cristão, com a ambição de pôr todas as minhas forças ao serviço da verdade”. Aplausos reboaram por toda a sala.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Vida de Ozanam (VIII)


De volta à Paris, de volta ao combate à irreligiosidade

Paris tinha, agora, para Ozanam “gosto de exílio”. Além da ausência da noiva, encarava a perspectiva da estreia como Professor da Sorbona, onde estivera como aluno apenas há seis anos atrás. Hospedara-se em casa de Bailly, onde era tratado como filho. Enquanto não iniciava o Curso passava o tempo visitando amigos, escrevendo para importantes jornais e preparando a primeira aula com afinco. Dedicava-se também à Sociedade de São Vicente de Paulo.

Bailly queria aproveitá-lo para desenvolver maiores esforços na direcção da obra, especialmente no funcionamento do Conselho Geral, onde Baudon, com seus 21 anos, substituía Lallier. Oitenta conferências floresciam em 48 cidades de 38 Dioceses, com as bênçãos da Santa Sé e o paternal apoio dos Bispos. Estabeleceram-se delimitações entre o Conselho Geral e os Particulares. E Ozanam, ante a desagregação de tantas coisas, destaca essas obras de Caridade; sobretudo o respeito à Religião.

Não é que tivessem arrefecido as investidas contra a Igreja. O sansimonismo voltara a ser ensinado no Colégio de França, professores anticatólicos recebiam medalhas e eram autorizados cursos populares para reanimar ódios desaparecidos. Ozanam, porém retornara à luta, inquieto mas não desencorajado, e a Sorbona passou a ter um Curso de Catolicismo dentro de um Programa de História, convertendo mais descrentes do que numerosos sermões, como disse um dos ouvintes em carta ao jovem mestre.

A estreia como professor

No dia 1º de Janeiro de 1841 ocupou a cátedra de Literatura Estrangeira, na Sorbona, como suplente, um jovem professor de 28 anos, pálido e vacilante, defronte de uma plateia de estudantes, professores e amigos. Era a estreia de Ozanam. Começou claudicante, nervoso, temeroso. Mas inflamou-se, entusiasmou-se e, entre palmas, terminou abraçado pelos presentes, que o felicitavam pela aula magnífica. A noiva, de longe, participava do triunfo, por ela atribuído a muita oração.

Ozanam temia que o grande auditório da estreia ficasse reduzido no correr das aulas. Mas, durante todo o Curso, a assistência permaneceu fiel, superlotando o anfiteatro. Era fato realmente novo, que um rapaz de 28 anos ali estreasse como mestre e como mestre fosse ouvido. Os católicos vibravam. Os descrentes se sentiam dominados por aquela eloquência. O Ministro o felicitava e grandes jornais mandavam estenografar as lições. Escrevendo à noiva, atribuía tanta glória a orações dela.

O casamento de Ozanam e Amélia

Ozanam e Amélia uniram-se pelo matrimónio no dia 23 de Julho de 1841, com o advento das férias na Sorbona. O noivo completara 28 anos e a noiva 21. O celebrante foi o irmão de Ozanam. Este, em carta a Lallier, narrou a cerimónia e seus sentimentos: “Eu sentia descer sobre mim as palavras consagradas”. “Ao meu lado, uma jovem de branco, velada e piedosa como um anjo”. Não se podia ser mais amoroso.

Após o casamento, a que assistiram numerosos vicentinos, teve início a lua de mel, através da. Itália. Ozanam declarava-se grandemente feliz, e dizia compreender o céu, acentuando: “Estou completamente iluminado de felicidade interior”. Em Roma foi o casal recebido pelo Papa Gregório XVI, que os fez sentar junto a ele, dizendo: “Vocês são meus filhos, deixemos a etiqueta de lado e vamos conversar”. Em Dezembro o jovem par chegou a Paris, onde se instalou.

De volta da lua de mel Ozanam encanta mestres e alunos

Retomando Ozanam, em Janeiro de 1842, suas aulas na Sorbona, nas quais iria desenvolver quase toda a história da literatura, disso aproveitava-se para um reencontro do espírito filosófico com o espírito católico. Ele fazia de suas aulas uma “missão sagrada” e não dava início a elas sem ajoelhar-se e recorrer ao Espírito Santo. Os alunos ficavam vibrando com suas lições e o acompanhavam após as aulas num verdadeiro cortejo de aplausos.

Ozanam impunha-se uma aura de grandeza intelectual e moral. Frequentavam suas aulas muitos professores, jornalistas e homens de letras. Diziam que “tinha o fogo sagrado”. Sua convicção interior “convence e comove” .O célebre Renan afirmava: “Sempre saí de suas aulas mais forte e mais decidido a melhorar”. E repetia mais tarde: “Como nós o amávamos!”. Lamartine afirmava “haver em torno de Ozanam uma atmosfera de ternura pelos homens”. “Era um apóstolo da Verdade”.

Ao preferir ser professor substituto em Paris, desprezando segura situação confortável em Lião, Ozanam e esposa mantinham vida modesta. O director do célebre Colégio Stanislaw, Padre Graty, convidou-o para leccionar ali com boa remuneração. Sua passagem naquele colégio foi memorável. Dezoito meses durou seu curso, mas deixou tal impressão nos alunos que eles jamais esqueceram. Nunca um professor, na opinião deles, obteve tanta atenção, que significava caloroso aplauso. Ele espalhava simpatia e recebia simpatia.

Com sua eloquência Ozanam consegue várias conversões

Faltava a Ozanam boa aparência pessoal. Um de seus alunos, Carô, mais tarde professor na Sorbona e membro da Academia Francesa, assim traçou seu retracto: “Ozanam não tinha a seu favor nem a beleza nem a elegância nem a graça. Baixote e desengonçado, apresentava fisionomia estranha, com sua miopia e cabelos despenteados. Mas ajuntava à sua expressão de bondade um sorriso espiritual. Era como se um raio da alma passasse por essa fisionomia”.

Causava admiração o alto critério conquistado por aquele jovem de 28 anos, muito religioso. Lamartine destacava suas “afirmações inquebrantáveis”. O fato é que ele dominava qualquer auditório. Prova desse domínio ocorreu numa aula de Lenormant, antigo descrente agora bom católico, chamado o “Convertido da Sorbona”: Despeitados, antigos colegas de ateísmo prepararam com alguns alunos uma vaia, que começou a ser ensaiada. Ozanam, entrando na classe, conseguiu, só com sua presença, silenciar a turma.


Os homens de estudo que passaram a praticar a religião, formaram o “Circuto Católico”, onde realizavam conferências sobre assuntos variados. Ozanam, convidado, aceitou presidir a Conferência de Literatura. Com seu ardor de sempre convidava os ouvintes a trabalhar pela ciência, “no fundo da qua1 se encontrava Deus. Deus quer que a procuremos para lhe provar”, o nosso amor por ela. O caminho é difícil e longo. Alcançado o fim, a glória será da Providência”.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Vida de Ozanam (VII)


 A morte da mãe de António Frederico Ozanam

Estava Ozanam satisfeito com a nomeação. Via-se livre da advocacia, tinha boa renda, ficando ainda ao lado da mãe, sempre piorando. Por causa dela recusara ser professor de Filosofia em Orleans, cargo oferecido pelo Ministro Cousin. A satisfação durou pouco. Em 12 de outubro ela falecia, tendo-se, como o marido, devotado totalmente aos pobres. Ozanam chorou longamente aquele trespasse. Na sua dor, sentia-a presente, sorrindo-lhe de longe, como costumava ela fazer.

Apesar da realidade, queria continuar com os pais pelo pensamento, pela fé, pelas virtudes, sem qualquer alteração. sentindo a mãe ao seu lado, passava a chorar com mais força, embora inefável paz o invadisse nesses instantes de melancolia. “Quando faço algo pelos pobres, escrevia, que ela tanto amava; quando me entrego a Deus, a quem ela tanto servia; quando rezo, creio escutar sua oração, que acompanha a minha, como fazíamos juntos ao pé do Crucifixo”. Ainda vivendo sua mãe, mais ainda após sua morte, Ozanam andou cultivando veleidades pela vida sacerdotal, animado pelo Padre Lacordaire, ansioso para fazê-lo dominicano. Em fervorosa correspondência, o célebre frade manifestava “grande desejo de chamá-lo um dia meu irmão e meu pai”. Coube ao Padre Noirot e” Montalembert dissuadi-lo desse intento, mostrando que ele não fora feito para a vida religiosa e afirmando que, como leigo, muito mais poderia fazer pela Igreja.

A divisão da primeira conferência produz os frutos previstos por Ozanam.

Entrementes, a Sociedade aumentava suas fileiras de modo surpreendente. Surgiam Conferências nas Escolas Normal e Politécnica, já subindo a 14 as existentes em Paris, com igual número nas Províncias e mais de mil confrades. Estudantes acorriam em bando, aos apelos dos colegas vicentinos, seguidos de nobres, deputados, generais, escritores distintos. Centenas aproximavam-se da Sagrada Comunhão. A divisão da primeira Conferência produzia os frutos previstos por Ozanam. Fora preciso dividir para crescer.

O amor a Sociedade faz Ozanam descartar a ideia da vida sacerdotal

Em 16 de dezembro de 1839 Ozanam inaugurou suas aulas de Direito Comercial na Academia de Lião.
Verdadeira multidão se comprimia na sala, chegando a forçar as portas e quebrar as vidraças. Era impressionante o acolhimento dado àquele moço de 26 anos, que conseguia entusiasmar o auditório com seu saber e sua eloquência. Ozanam programou suas lições de modo prático, pois precisava aproveitar ao máximo o tempo dos ouvintes, para quem as horas valiam cifrões.

Meditando nas ponderações do Padre Noirot e de Montalambert, concluiu Ozanam que, além de razões particulares, justificava seu recuo nas pretensões de uma vida eclesiástica, ressaltando o compromisso indissolúvel selado com a Sociedade de São Vicente de Paulo. Era a ela que se devia dedicar , nela permanecendo para estendê-la no terreno secular, onde ela nascera: obra de apostolado, mas, sobretudo, de apostolado leigo, igualmente sagrado; abandoná-lo seria traição. Ozanam pede Amélia Soulacroix em casamento. Afastada a hipótese de seguir a carreira sacerdotal, a alternativa de Ozanam seria o casamento. Até então não pensara nele. Quando encarava o assunto era para deprecia-lo, vendo na vida conjugal “um egoísmo a dois, incompatível com o apostolado”. Começava, porém, a sentir-se só, especialmente após o falecimento dos pais. Passou a idealizar uma companheira excelente e
virtuosa. Padre Noirot julgou necessário ajudá-lo na escolha, optando pela filha do Reitor da Academia de Lião.
Era Amélia Soulacroix, filha de Jean- Baptiste Soulacroix, Reitor da Academia de Lião, casado com Célia Maganos, norte-americana. Decidiu o Padre Noirot aproximar Ozanam da jovem, combinando uma visita aos pais dela. Tudo acertado, convidou Ozanam a ir à casa do seu Diretor , no que foi atendido. Na entrada, encontraram “por acaso” , madame Soulacroix, a quem foi Ozanam apresentado como jovem professor de Direito. Recebido efusivamente pelo Reitor, com ele manteve cordial palestra.
Enquanto conversava com Soulacroix, observou Ozanam que no aposento vizinho uma encantadora moça cuidava com muito carinho de um rapazinho paralítico. Era Amélia e o irmão único. Toda entretida com o enfermo, ela não prestou atenção ao visitante. Ele, porém, enlevado pela cena, foi tomado de admiração e murmurou: “A amável irmã e o feliz irmão. Como ela o ama!” E seus olhos não se afastavam da moça. Indubitavelmente era amor à primeira vista. Ozanam passou, então, a trazer no coração um sentimento novo. Ele amava Amélia, cujo nome correspondia à fineza dos traços e amabilidade do caráter; ela tinha tudo para agradar ao jovem professor que passou a frequentar a família. E os dois jovens puderam conhecer-se mais profundamente. Meses depois, voltando triunfante, do concurso de Literatura na Sorbona, Ozanam pede Amélia em casamento. Soulacroix, tomando as mãos dos dois jovens entre as suas, consente generosamente.
Ozanam realiza o sonho de trabalhar com Letras, é nomeado professor de Literatura Alemã
Ao mesmo tempo em que desenvolvia suas aulas, aproveitava Ozanam os assuntos para incursões no campo da religião, mostrando que o fundamento do Direito é a Lei Divina, e enquanto expunha os direitos dos empresários lhes apontava os deveres para com os trabalhadores. O Reitor da Academia procurando prendê-lo mais, conseguiu aumento substancial nos seus honorários. Além disso, propôs ao Ministro sua nomeação para Professor de Literatura Estrangeira na recém-criada Faculdade de letras.
O Ministro da Instrução condicionou a nomeação de Ozanam para a nova Cadeira à sua inscrição no concurso de Literatura a realizar-se na Sorbona. O Ministro queria atrair Ozanam a Paris, tão impressionado ficara com sua cultura. Já havia seis candidatos inscritos e preparados há mais de ano. Ozanam iria dispor apenas de seis meses para isso. Mas, desejando atender ao Ministro, concordou; embora tendo poucas esperanças de sair vencedor.
No preparo dos exames dificílimos, gastou Ozanam dias e noites, sabendo que ia enfrentar sérios concorrentes.
Por isto, pouco esperava do concurso. O triunfo, porém, foi espectacular, embora Ozanam considerasse o resultado como “um jogo impertinente do acaso”. Como sempre, Ozanam aproveitou os assuntos para reafirmar sua fé e mostrar o valor do pensamento católico no desenvolvimento do saber humano. Proclamado o resultado, um dos examinadores fez uma proposta a Ozanam.
O examinador pediu-lhe que o substituísse na Cadeira que leccionava naquela Faculdade. A partir desse momento. Ozanam pertencia às Letras e a Paris, porém, mais ainda a Deus, em quem pusera a sua confiança. Desejava regressar a Lião e estar com os irmãos e amigos. Mas precisava preparar-se para ocupar a Cadeira com um Curso de Literatura Alemã. Daí ter que viajar para a Alemanha a fim de organizar as lições com material colhido na fonte.
Após aprovação da noiva Amélia Ozanam decide retorna a Paris Ozanam voltou e sentia-se feliz e confiante especialmente naquela que chamava seu “anjo da guarda”. Quem não gostava era o Padre Lacordaire, que o queria dominicano, e, por isso, viu no noivado “uma armadilha”
supostamente atribuída ao Padre Noirot. Ozanam estava em ótima situação. Recebia 15 mil francos como Professor. Mas recebera convite para leccionar na Sorbona onde só ganharia 5 mil francos, como professor adjunto. Era preciso decidir: Lião, com conforto, ou Paris, com sacrifício. A decisão impunha-se. Lião era a estabilidade financeira, o aconchego familiar, as amizades já estabelecidas, o respeito e a consideração da Sociedade; Paris oferecia apenas uma suplência de professor, honorários reduzidos, situação precária, vida apertada, desconforto. Consultou o futuro sogro. Este preferiria Lião. Mas Paris era o teatro das grandes realizações cristãs, vasto campo da Caridade em ação, a restauração do valor da Igreja entre literatos e cientistas, obra para que era chamado por Deus.

Os argumentos de Ozanarn comoveram Soulacroix, óptimo cristão, que também via as vantagens para a Igreja numa ação decisiva nos meios universitários. Neste caso, perderia a filha. Pediu, então, a Ozanam que a consultasse. Caberia a Amélia a suprema decisão. Teria ela bastante confiança nela, nele e em Deus, para aceitar o sacrifício que Paris reclamaria? Colocando a mão na de Ozanam, ela disse: “Tenho confiança em você”. A sorte estava lançada. Paris vencera.