"Eu gostaria de abraçar o mundo inteiro em uma rede de caridade"
António Frederico Ozanam

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Faleceu em Lisboa o Vicentino Fernando Reis

A pesquisar a página da Sociedade São Vicente de Paulo em informações, é dado a notícia pelo Presidente Conselho Nacional que o nosso querido e bem conhecido Fernando Reis tinha falecido no dia 12 de Agosto de 2015.
As férias dá para descansar mas também deu para noticiar a notícia que, da minha parte quase um mês passado viemos a saber.



Transcrevo a noticia: com data de 12-08-2015 

É com muito pesar e tristeza, que vos comunico que o nosso amigo Vicentino Fernando Reis, partiu hoje para junto do Pai.


Estará em câmara ardente na Igreja de Nossa Senhora do Amparo em Benfica, a partir das 17 horas de amanhã dia 12 e será celebrada a Eucaristia de corpo presente, pelas 10,30 horas do dia 13, quinta feira, seguindo o funeral para o cemitério de Benfica.

O Conselho de Zona de Gaia Norte solidariza-se com a sua família, é desejo de toda a Família do Conselho de Zona desejando os nossos sentidos pêsames à família com um «PAZ & BEM

Modelos Família vicentina Felisberto Vrau e Camilo Féron-Vrau


FELISBERTO VRAU - (1829 - 1905) 
e
CAMILO FÉRON-VRAU - (1831 - 1908)
"Os Santos de Lille"

Não é possível separar um do outro, estes dois companheiros de toda a vida: companheiros de estudos desde a infância, unidos por laços de parentesco no casamento de Camilo Féron com a irmã de Felisberto Vrau, associados numa mesma e grande empresa industrial; e sobretudo associados na mais arrojada e persistente obra social e de acção católica - mas que acção! - desenvolvida não só em Lille, como no norte de França, como até em toda a França, durante o espaço de meio século. Obra formidável, absolutamente revolucionária pela largueza de vistas, pelo arrojo com que dois simples particulares assumiram responsabilidades que fariam hesitar um Município ou até mesmo um Estado; formidável ainda pelo intenso fogo de caridade que a ilumina!
São bem os santos do nosso tempo, que viveram a nossa vida, sujeitos às mesmas tentações; que souberam fazer uma fortuna; e que ainda melhor a souberam gastar em obras verdadeiramente extraordinárias de carácter religioso ou social, num dom total de si mesmos pelos seus irmãos, outros Cristos.
Felisberto Vrau era filho dum industrial de fiação, de Lille; rapaz forte e cheio de audácia, ligou-se de amizade no colégio com Camilo Féron, que pertencia a uma família da intimidade da sua. Em contraste com Felisberto, Camilo era um tímido, bondoso e delicado, que ao seu amigo ficou devendo o valor da sua protecção, paga aliás no constante amparo moral e bom exemplo que dispensou a Felisberto, na grave crise religiosa e de costumes que o trouxe transviado durante anos, em procura da verdade, através de correntes filosóficas várias, as quais não foram capazes de entravar o dom natural, que o levava a desejar ganhar muito dinheiro, para aliviar a humanidade dos seus sofrimentos.
Convertido, finalmente, aos 24 anos, dá-se todo a Deus e após um primeiro insucesso na vida comercial, quer tomar sobre si a sua parte no sofrimento. Afervora-se mais na sua devoção à Sagrada Eucaristia e, como fonte inspiradora, tenta a Adoração nocturna.
É então que, ligado à indústria de seu pai, consegue, à custa da sua prodigiosa actividade e inteligência prática, libertá-la da vida sempre periclitante que tem atravessado, entrando em franca prosperidade.
Mas com o declínio do pai, vê-se obrigado a procurar um colaborador com quem reparta o ingente trabalho, sem prejuízo do tempo a consagrar à oração e às obras, para as quais aquele serve de pretexto. Esse colaborador não pode deixar de ser seu cunhado Camilo, que como médico conquistara já uma sólida posição e tem diante de si um futuro brilhante, como indigitado professor de clínica médica e futuro Director da Escola de Medicina, o que tudo sacrifica, para tomar a seu cargo a parte comercial e direcção do pessoal da fábrica. Pela morte do sogro, torna-se associado da organização Vrau, e o nome Vrau passa a ligar-se por um traço de união ao de Féron.
Desde há muito, a casa aplicava um terço dos lucros em boas obras, que revertiam principalmente em favor do pessoal, mas a proporção vai crescendo e depois já não se acha suficiente a acção individual. Sente-se a necessidade de criar instituições.
É o tempo do Conde de Mun e de La Tour du Pin, o momento dos Círculos Católicos.
Intensifica-se então a vida cristã naquela colmeia, onde há o maior rigor na escolha do pessoal, e por tal forma aumenta que, de 1871 a 1972, se contam nada menos de 52 vocações religiosas!
Forma-se a Corporação Cristã de São Nicolau, que agrupa 1 300 operários, com as suas numerosas caixas, que provêm a todas as necessidades: caixa económica de empréstimos, socorros mútuos, assistência a doentes, assistência maternal, socorros à invalidez e à velhice, obra dos funerais, etc., etc. Todas estas obras se alimentam de quotização mínima dos beneficiários, decuplicada pela inesgotável contribuição patronal.
Léon Harmel preconiza então a associação dos patrões cristãos; em Lille e mais cidades industriais do norte, respondem 42 industriais, que entram decididamente no estudo dos problemas do trabalho: trabalho de menores e de mulheres, limitação do horário de trabalho, interdição do trabalho nocturno, descanso dominical, etc.. São bem os precursores da actual legislação do trabalho!
O movimento cristão é de tal ordem que, quando em 1899 se organizou uma peregrinação a Roma, nela se incorporaram 600 operários do norte, acompanhados pelos seus patrões.
É depois atacado o problema das habitações operárias, construindo casas económicas modelares, e vem a seguir o problema da formação de bom pessoal cristão de oficinas, para o que falta uma escola de artes e ofícios. Aparece um terreno de 13 000 metro quadrados à venda, e aparece também um anónimo (...) que o compra. Forma-se uma sociedade. As paredes da escola levantam-se; em breve se abrem as portas e cresce o número de alunos, apesar da concorrência da escola oficial, logo a seguir criada.
A participação de Féron-Vrau na fundação pode ser avaliada por esta sua palavra, que data da mesma época: "Aos meus olhos, o dinheiro tem um único valor, o de poder ser dado".
Mas não ficam por aqui: vem, mais a ideia da fundação da Universidade Católica de Lille. Na previsão da publicação da lei da liberdade de ensino, adquirem o palácio da prefeitura, recrutam professores, conseguem subscrições de verbas colossais e dão sempre o exemplo, de tal maneira que num escrito de Camilo se lê: " Os sacrifícios foram largos", e quando lhos agradeciam, Felisberto dizia: "Nós é que deveríamos agradecer", o que se pode ainda confrontar com a pergunta de Camilo: "Porventura este dinheiro é meu?"
Em 1877 inaugura-se solenemente a Universidade, com cinco Faculdades: Teologia, Direito, Letras, Medicina e Ciências. Toda esta obra é impulsionada pelos nossos extraordinários gigantes e em grande parte por eles custeada. Mas vejamos ainda a extensão das obras anexas à Faculdade de Medicina, especialmente trabalhada por Camilo, que dela foi o verdadeiro Mecenas: começa por ser preciso umhospital; depois vem uma casa de saúde, maternidade, asilo para incuráveis, hospital de crianças, etc., fundações estas destinadas, todas elas, a entronizar a Religião na Medicina.
Há ainda a registar, e isto especialmente da parte de Felisberto Vrau, a iniciativa da santificação de Lille, que começou pela formação duma Associação de Orações com intenção fixada, interessando mais de 20 000 fogos. Mas fazia-se sentir a falta de igrejas na cidade, cuja área e população tinham aumentado consideravelmente. Vrau toma um mapa, marca os pontos, dobra-o e inscreve nas costas: "Lille em vinte paróquias".
Funda uma sociedade civil, reúne fundos e começam a erguer-se igrejas: do Sagrado Coração de Jesus, deS. José, de Santo Euberto (patrono da cidade), de S. Luís, do Coração de Maria, de S. Bento Labre, etc.. Havia sempre um anónimo (?) que oferecia o terreno. O Tesoureiro da sociedade deixou um apontamento que diz: "Parece certo que a parte substancial da enorme despesa vinha do Sr. Vrau, mas não existem documentos a tal respeito".
Não houve terreno em os Santos de Lille nâo aceitassem valorosamente a luta, para defesa dos interesses da Igreja e difusão da verdade. Como poderiam eles então deixar de se servir das duas grandes armas modernas: a imprensa e a escola?
Espalharam largamente a boa imprensa, pela qual tanto se interessam. Quando em 1900 os assuncionistas foram obrigados a abandonar "La Croix", o jornal não morreu e continuou sob a direcção de Paul Féron-Vrau.
Grande foi também o esforço a favor das escolas católicas: desde 1880 havia escolas de Irmãos em todas as paróquias de Lille, e o Presidente do Comité podia declarar que, no momento em que a Universidade Católica custava à província oito milhões, os católicos de Lille tinham sabido achar mais dois milhões para o ensino primário religioso.
À pressão desleal da Municipalidade, sectária em favor das escolas oficiais, responde a comissão Vrau com a criação dum vestiário, comissão de higiene, serviço médico escolar, catequese, adopção fraterna, patronatos, etc.,; de tal maneira que em 1888, contra uma população escolar de 12 000 crianças nas escolas oficiais, contam-se 21 000 nas escolas católicas.
Foi ainda em Lille que se celebrou por esta altura o primeiro Congresso Eucarístico Internacional no ano de 1881, com a presença dum Legado do Papa.
Restam umas palavras sobre a acção vicentina dos nossos santos: Vrau foi presidente do Conselho Central de Lille e Féron do Conselho Particular. O trabalho esmagador que recaía sobre o primeiro levou Féron a demitir-se do seu cargo para ir em auxílio do cunhado. Os meses de Julho a Outubro de cada ano eram empregados em viagens de visita às Conferências existentes, assim como às paróquias onde ainda não as havia, nas dioceses de Cambrai e Arras, meio pelo qual se fundaram 22 Conselhos Particulares e 161 Conferências.
Chegamos ao fim deste pálido esboço sobre a espantosa actividade destas duas vidas e perguntamos a nós mesmos se tudo isto se teria dado na realidade. É inacreditável, mas Deus permitiu que estas duas almas, devoradas de amor do próximo, por amor de Jesus Cristo, vissem cobertos de frutos o seu desmedido esforço, dando assim a mais categórica resposta ao desafio lançado em rosto dos estudantes católicos de Paris, nas Conferências da História: "Por que actos, por que instituições se assinala na actualidade a actividade dos católicos?" - Basta ir a Lille para se ter a resposta.
E chegamos ao final, a santa morte que um e outro tiveram, após uma longa vida de preparação. Vrau foi-se afastando das suas obras, desde uns anos antes: queria habituá-las a passarem sem ele e aproveitava para percorrer a França inteira, como missionário - missão de estabelecer a união das obras - durante uns 9 ou10 meses por ano. Entretanto toda a sua parte nos benefícios da empresa ia integralmente para as obras e para os pobres. Desde a sua conversão, comungava diariamente, alegrava-se com as humilhações que sofria e aplicava a si mesmo as disciplinas.
No ano de 1905 falecia santamente no fim da recitação do terço. Era o dia 16 de Maio, vigília da festa de S. Pascoal Bailão, o santo da devoção à Eucaristia que sempre foi também a sua grande devoção.
Camilo Féron quis igualmente preparar-se com tempo, para o que foi renunciando sucessivamente a todo o papel activo nas obras, excepto nas habitações operárias. Recolhe-se, faz um retiro e a última liberalidade é a cedência dum terreno para a construção duma igreja, a qual dota, e que o Arcebispo coloca sob o patrocínio de S. Camilo.
Não passa um minuto sem rezar. A Monsenhor Baunard, ilustre biógrafo dos dois e reitor da Universidade Católica, que dele se despede "Até à vista", responde "até à vista no Céu" e extingue-se suavemente em 30 de Março de 1908, ouvindo recitar "Parte alma cristã".
Os corações dos dois amigos, encerrados numa urna na parede do oratório da Universidade Católica, que os quis possuir, mesmo ao pé do Divino Sacramento, realizam à letra a palavra do Mestre: "Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração".

No túmulo estão também reunidos os dois irmãos, enquanto o povo de Lille espera confiadamente a sua elevação aos Altares, pela beatificação, cuja causa, com parecer favorável de Roma, foi solenemente introduzida em 11 de Março de 1912.

Modelo Família Vicentina - César Guasti

César Guasti
(1822 - 1889)

  Nasceu em Prato, na Toscana, em 4 de Setembro de 1822, família fundamentalmente católica, à qual deveu a sólida educação, que toda a vida o manteve, sem quebrar ou desviar, no caminho do bem, por forma a constituir exemplo que de bem merece ser apontado aos vicentinos de Portugal; é-nos dado conhecê-lo, graças à extrema gentileza dos vicentinos italianos, os quais nos facultaram as necessárias fontes de informação: o óptimo livro «Cesare Guasti e la sua piétà», do P. Crispolti, três Conferências sobre Guasti e ainda o volume das cartas, o qual constitui o 7.º volume das suas obras. 
  Como historiador, crítico, filósofo e escritor, conquistou renome nas letras italianas e pôde ser classificado por Del Lungo, presidente da Real Academia della Crusca, como esplêndido artífice da palavra. Como arquivista revelou, aos vinte anos, à Itália os melhores escritos em língua toscana, nomeadamente os dos tricenticas e quatrocentistas franciscanos. E assim foi que, com apaixonado entusiasmo, católicos e não católicos tomaram contacto com a extraordinária figura de São Francisco de Assis. 
  Nas letras pôde ser tido como o escritor nobre das harmonias e também como homem da sinceridade, em contraposição a tantos que se servem dos melhores dons de Deus para nos transmitirem a dúvida.
  Dotado de requintada sensibilidade, vibrava intensamente com qualquer manifestação de arte e foi amoroso e profundo cultor do belo, como caminho para a verdade.Em florença, onde trabalhou desde os vinte e oito anos, conviveu com críticos e artistas de quem foi o grande animador e que onviam com respeito a sua opinião. A ele, como secretário da comissão de reconstrução da fachada de Santa Maria del Fiore, se deve, em grande parte, a majestade e imponência que dela fizeram a senhora das catedrais italianas.
  Espírito florentino e quase mediaval, não se impressionou grandemente com o fausto de oiro e mármores de São Paulo, em Roma, que classificou de «troppo bella» e prejudicada em arte pelo excesso de riqueza.
  Mas bem mais valiosa do que todas essas felizes disposições do seu espírito é a reputação de santidade deixada pelas suas singulares virtudes cristãs e que lhe valeu a introdução do processo de beatificação.
  Não se guardou para a idade madura: desde a primeira juventude se distinguiu pela pureza de intenção santificadora de todas as obras e assim viveu no século como se estivesse no claustro. A vida de Guasti encontrou sempre na Religião a força do seu ser e no convívio dos seus dignos ministros o melhor conforte e a mais pura alegria: mas nem por isso amou menos a pátria. Já avançado em anos, repetia que outros amores não tivera na vida senão os da Religião, da Pátria e da Arte.
  Esqueceu-lhe porém falar num quarto amor: o da Família, que ocupou uma parte tão grande do seu nobres e generoso coração! é ver o que foi o seu casamento; a perfeita união com sua mulher nos sete anos de felicidade conjugal que Deus lhe concedeu; e, depois da morte desta, aos trinta oito anos apenas, a constante recordação da sua memória e a total entrega à educação dos quatros filhos que lhe ficaram.
  Dele diz o seu biógrafo que deveu o seu perfeito equilíbrio a ter o corpo sujeito ao espírito e este sujeito a Deus.Tudo quanto se conhece da sua vida demonstra esse salutar equilíbrio, sempre mantido, desde a idade das fortes paixões. Senão, é ver a serenidade das suas disposições quando pensava em casar. Ao tomar a sua decisão, escreve uma carta admirável à sua mulher do seu grande amigo Giuseppe Mochi, senhora também da intimidade de Annunziatta Becherini, encarregando-a de comunicar a esta os seus sentimentos.
  Viúvo aos trinta e oito anos, com a vida em pleno vigor, soube compreender o altíssimo significado do matrimónio-sacramento e votou-se livremente, embora com forte sacrifício, ao estado de viuvez. entrega-se então totalmente à missão de educar os filhos e simultaneamente à da sua própria santificação, único verdadeiro interesse da vida, sempre no culto da esposa muito querida. Diariamente pratica actos de mortificação: em tudo se sujeita à vontade de Deus; ensina os filhos a rezar e com eles faz o exame de consciência.
  À educação dos filhos junta o estudo e o trabalho do arquivo do Estado e a Academia da Crusca; refugia-se na leitura dos Livros Santos, sobretudo dos Evangelhos e da Epístola de São Paulo.
  Jovem ainda, ajudou activamente a florir na sua cidade de Prato a obras das Conferências de São Vicente de Paulo, instituída por aquela alma puríssima e franciscana de Frederico Ozanam, por quem Guasti teve um verdadeiro culto.
  Foi depois membro honorário e grande protector da Conferência florentina, além do muito bem que praticava particularmente e sem que a mão esquerda soubesse o que dava a direita: foi assim que, um ano antes de morrer tornou a seu cargo uma família não pequena a quem morrera o pai.
  «César Guasti, nome que não teme o esquecimento! - Que homem! Religioso e integérrimo; viúvo em idade juvenil, obersevou nobilíssima severidade de costumes! - Que pai! Nas suas qualidades próprias de probidade e de amor à boa operosidade educou os numerosos filhos. - Que cidadão! Não nos campos de batalha, nem nos ministérios de Estado; mas serviu a Pátria com amor aceso pela sua glória e pelo seu bem, como funcionário público, como escritor e como Vice-Presidente da Deputação da História».
  Esta palavras, seguidas duma despedida sentidíssima, em que se acentua fortemente a saudade de Prato e de Florença, foram proferidas sobre o féretro de Guasti pelo seu colega, admirador e amigo, augusto Conti, em nome da Academia da Crusca.
  Ficam bem aqui, a fechar a breve notícia, que se quis dar aos portugueses de mais sublime modelo vicentino.