"Eu gostaria de abraçar o mundo inteiro em uma rede de caridade"
António Frederico Ozanam

quarta-feira, 29 de março de 2017

ORAÇÃO PELOS 400 anos do CARISMA VICENTINO

APROXIMA-SE, a passos largos a Peregrinação Anual Vicentina a Fátima, dias 22 de 23 de abril.
Este ano é um ano especial, coincide com tres datas e um acontecimento também especial.

400 Anos deu-se em Folleville 1617 passado por Châtillom.
300 Anos a Congregação da Missão em Portugal pelas mãos de Padres Lazaristas.
100 Anos sobre as aparições de Fátima.
E, anuncio de canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta.

Então convidaria dedicar-nos este tempo, como preparação em oração.




quarta-feira, 22 de março de 2017

«São Vicente de Paulo» Simplicidade - Humildade - Mansidão - Mortificação - Zelo Apostólico


1.     SIMPLICIDADE

A virtude da Simplicidade educa-nos na capacidade de desenvolver os valores da verdade, da sinceridade, da transparência. Viver plenamente a simplicidade nos ajudará a evitar ser falsos uns com os outros e muito menos com o povo; por esta virtude somos chamados a ser simples, a dizer as coisas como são, sempre com sinceridade em relação à outra pessoa.
Diante dos desafios que o pluralismo de ideias e de valores e contravalores que a sociedade capitalista nos impõe, precisamos ficar mais atentos em relação à nossa postura junto ao povo e o cultivo de valores que não são transitórios, mas base para a vida com dignidade. Um desses valores é o cultivo da simplicidade. O povo ao qual procuramos evangelizar se aproximará de nós mediante nossa postura diante dele. A simplicidade impregnada em nossos atos possibilitará essa pedagógica aproximação do povo mais simples a nós e vice-versa.
O próprio São Vicente definiu na sua vivência a importância desta virtude na vida de um vicentino: “A simplicidade é a virtude que mais amo, eu a chamo de meu evangelho” (SV I,284).
   a.    Eixo Vicentino: A vivência da Virtude da Simplicidade educa-nos para a proximidade do mundo dos pobres na realidade de hoje em seu universo socioeconómico, cultural, religioso, geográfico; tal aproximação coloca-nos em clima de disponibilidade para acolhermos e nos aproximarmos do diferente, da compreensão do pluralismo no meio da humanidade, favorecendo-nos em nossa missão de instrumentos da universalidade da salvação inaugurada por Jesus de Nazaré em sua práxis libertadora.

   b.    Dimensão Humana: A vivência da Virtude da Simplicidade no concernente à dimensão humana leva-nos ao tratamento da pessoa com o devido cuidado e atenção que ela merece, o que favorece à mesma sentir-se saudável psíquica e fisicamente, pois sentir-se uma pessoa amada no seio de uma comunidade e em meio à sociedade produz um aspeto profundamente agradável no sentimento da autoestima. A simplicidade no nosso viver vicentino leva-nos a quebrar barreiras na convivência com os mais pobres, proporcionando-nos maior aproximação ao seu universo de vida, levando-nos a contribuir no processo de sua própria educação, visando a integralidade da sua própria pessoa.

   c.     Dimensão Espiritual: A experiência da Simplicidade na vida exige de cada um de nós uma busca saudável do equilíbrio entre trabalho e descanso recreativo. A Espiritualidade vicentina necessita de uma forte experiência de Deus para que possamos irradiá-la no serviço aos pobres. Consequentemente, nossa inserção no mundo dos pobres a partir do cerne da nossa Espiritualidade, exige-nos a clara consciência de que fazemos este esforço não por meras motivações, mas pela convicção de estarmos contribuindo qualitativamente na construção do Reino de Deus aqui e agora.


   d.    Dimensão Intelectual: A procura da vivência da Simplicidade no meio dos pobres traz-nos também uma exigência no aspeto intelectual; para que a nossa ação de aproximação ao mundo dos pobres seja sinal de transformação profética, precisamos investir em nossa própria formação inicial e permanente, motivados pelo ideal da compreensão das causas da pobreza para atacá-las com precisão. Para essa formação permanente acontecer precisamos de motivações internas e externas, lembrando que a sociedade atual, por si mesma, já nos faz essa exigência, pois torna-se, progressivamente, mais pluralista e complexa. Neste sentido, trabalhar com os pobres no nosso contexto atual exige de nós busca constante de preparação intelectual justamente pelo respeito que devemos ter à dignidade de todo ser humano. E o empobrecido não é um ser menos humano.

   e.    Dimensão Comunitária: Vivenciar a virtude da Simplicidade no concernente à dimensão comunitária exige colocarmo-nos na escola do Evangelho e também de São Vicente, para aprendermos sempre a alegria de partilhar com os irmãos na fé, sobretudo os mais empobrecidos da nossa história o saber, os bens, os dons e a vida. Nossa presença no meio do povo é sempre uma experiência de troca de saberes em todas as dimensões da vida.


f  f. Dimensão Apostólica: Cultivar a Simplicidade em nossas comunidades apostólicas compromete-nos a interiorizar progressivamente o valor de distribuir responsabilidades com os irmãos de fé, lembrando-nos que um dos aspetos da nossa vivência comunitária vicentina é alimentar nossa espiritualidade para um autêntico testemunho missionário no meio dos pobres do nosso tempo. Uma de nossas máximas é esta: Vida em comunidade para a Missão.

Finalizando nossa reflexão sobre a virtude da Simplicidade, vejamos uma belíssima descrição do próprio Vicente de Paulo sobre esta máxima evangélica: “Deus é simples. Onde encontrares a simplicidade cristã caminharás seguro; pelo contrário, os que recorrem a precauções e artimanhas estão num medo contínuo de que descubram seu artifício e que, ao se ver surpreendido em sua falsidade, ninguém quer ter confiança neles.

Da minha parte, posso afirmar, uma grande experiência me demonstrou, para minha satisfação que uma fé vigorosa e um verdadeiro espírito de religião encontram-se frequentemente entre as pessoas simples e pobres. Deus se compraz em enriquecê-las com uma fé viva: eles creem, apalpam, saboreiam as palavras de vida eterna que Cristo nos deixou em seu evangelho. Em geral, suportam pacientemente suas enfermidades, aflições e necessidades, sem nunca se queixarem ou murmurar.
Todo mundo sente atração por pessoas que são simples e cândidas, pessoas que se recusam a empregar a astúcia, os enganos. São populares, porque agem ingenuamente e falam com sinceridade; seus lábios estão de acordo com seus corações. São amadas e estimadas em toda parte…”(SV XI, 740s, 462).
2.     HUMILDADE

São Vicente de Paulo define a Humildade como a virtude que dá a característica essencial à missão na Pequena Companhia. A humildade é a virtude que nos torna capazes de reconhecer e admitir nossas fraquezas e limitações, criando assim a possibilidade de confiar mais em Deus e menos em nós mesmos. A humildade ajuda-nos a nos livrarmos da nossa autossuficiência, a reconhecermos nossa dependência do amor do Criador e nossa interdependência comunitária. Ao mesmo tempo, a humildade nos capacita para reconhecer nossos talentos, talentos que devem ser postos a serviço das outras pessoas. É a virtude que permite aos pobres aproximar-se de nós. É a virtude que nos ajuda a ver que todos somos iguais aos olhos de Deus. A vivência desta virtude educa-nos e capacita-nos, em contrapartida, para aproximar-nos progressivamente dos Pobres. Esta virtude nos impulsiona a um processo contínuo de inculturação no mundo dos pobres, encorajando-nos a um esforço de identificação com os mesmos.
Diante de uma sociedade tremendamente hedonista, individualista, separatista, perfeccionista do ponto de vista da aparência física em detrimento do cuidado integral do ser, a vivência da humildade se torna mais desafiadora, pois exige-nos maior sociabilidade a partir de dentro do nosso próprio lar, nosso grupo de convívio.
a.   Eixo Vicentino: A humildade, segundo São Vicente, é a virtude eminentemente evangélica. Jesus é o único mestre. Na conferência de 18 de abril de 1659, São Vicente se perguntou: “Em que consiste a humildade?” E respondeu: “Em querer o desprezo, em desejar a humilhação, em alegrar-se quando nos vemos humilhados, por amor a Jesus Cristo”. (SV XI, 488) A humildade faz-nos criar um sentido de pertença a um objetivo comum. Quando estamos dispostos a formar comunidade, construir unidade, nos entusiasmamos em trabalhar com objetivos comuns, somos capazes de nos doar, propor, aceitar e reconhecer como comunidade em vista da missão de evangelizar comunitariamente os pobres.

b.    Dimensão Humana: A virtude da humildade nos educa para a tolerância dialogada. Torna-se condição necessária para desenvolvermos, crescermos e fortalecermos como pessoas em comunidade, em sociedade de vida apostólica, como atitude que nos leva a reconhecer que todos necessitamos do outro para enriquecermos e superar nossas próprias dificuldades e individualidades. A abertura ao diálogo, o respeito, a atitude de compartilhar, a capacidade de escutar, de falar e de agradecer podem ser formas muito atuais da virtude da humildade.


c.     Dimensão Espiritual:. Reconhecer que somos redimidos pelo Ressuscitado. A humildade nos faz ver que o ser humano é pecador e o sensibiliza perante o pecado. A atitude de nos reconhecer pecadores perdoados pelo sangue de Cristo nos responsabiliza a reconhecer que nossa vida se enriquece e fortalece com o perdão; o perdão implica aceitação, e para aceitar é necessário sair de nós mesmos, esvaziarmos de nós mesmos, dar um passo na direção do outro, quebrar nossas arestas, derrubar muros, construir pontes.

d.    Dimensão Intelectual:. Reconhecer que somos pessoas limitadas, interdependentes, complementares. Temos opiniões diferentes diante da realidade que nos cerca e por isso mesmo a vivência da virtude da humildade nos faz constatar que é necessário estar dispostos à escuta dos outros e à reflexão, para juntos construir o caminho do discernimento coerente ao clamor da realidade.

e.    Dimensão Comunitária: A virtude da humildade nos faz conscientes de nossas limitações e nos capacita para a aceitação da colaboração do outro em vista da missão. A atividade missionária corre sempre o risco de ser dominadora e autossuficiente, de encerrar-se nas próprias ideias e métodos, de negar a colaboração do outro e da outra. A humildade faz com que o missionário, ao mesmo tempo que evangeliza, se deixe evangelizar e que pregue não sua palavra, mas a Palavra de Deus, assegurada pelo magistério da Igreja.

 f.    Dimensão Apostólica: A virtude da humildade nos impulsiona a posicionarmos diante da missão apostólica não como donos de determinada situação, mas como seres que estão dispostos a somar nossas qualidades e dons, simplesmente como colaboradores. Isso requer um processo de conversão onde cada um coloca o seu ser e faz o maior esforço para suscitar a mudança pessoal e estrutural, na sã consciência de que o único indispensável é a presença de Deus. Tudo o mais é transitório, instrumental para a eficácia da construção do Reino de Deus.
Concluindo a reflexão sobre a virtude da humildade, lançamos mão de palavras do próprio São Vicente em seus magníficos escritos, destacando sua dimensão missionário-pastoral. Vejamos: “Entendei bem isto, meus senhores e meus irmãos: nunca poderemos fazer a obra de Deus se não tivermos uma profunda humildade e uma humildade de opinião sobre nós mesmos. Não, se a Companhia da Missão não é humilde, se não tem a fé e a convicção de que não pode fazer o bem, que é mais apta para atrapalhá-lo, nunca realizará nada de grande; mas quando tem e vive o espírito do que acabo de dizer, então, ficai seguros, senhores, estará capacitada para fazer a obra de Deus, porque Deus usa de seus membros para suas grandes obras” (SV IX, 71, 284,809).
3.     MANSIDÃO

Etimologicamente, mansidão vem de “mansuetude” e manso de “mansus”, forma do latim vulgar de “mansuetus”. Tem um significado de comportamento aconchegante, familiar, doméstico. Conceitualmente, a mansidão se entende como a força, a virtude, que permite a pessoa moderar razoavelmente sua ira e indignação. A razoável indignação pode ser com frequência sã e saudável, transposição lícita da sobrecarga psicológica a um ato de zelo pela glória de Deus, pela justiça ou pelo bem do próximo. A mansidão não é agressiva, raivosa, barulhenta. Certamente é uma virtude chave na comunidade. É a virtude que ajuda a construir a confiança de uns nos outros, porque, quando somos amáveis, os que são tímidos se abrirão em relação a nós. Por estas razões podemos dizer que a mansidão é a virtude por demais vocacional, como constatou o próprio São Vicente: “Se não se pode ganhar uma pessoa pela amabilidade e pela paciência, será difícil consegui-lo de outra maneira ”(SV VII, 226).
A mansidão inspira um trato suave, agradável, educado, e fundamenta a tolerância, valor este muito importante para a convivência em uma sociedade plural em que o respeito à pessoa e à sua liberdade deve ser uma lei indiscutível.
a.    Eixo Vicentino: Com certeza, todas as virtudes contribuem para o dinamismo da vida comunitária em vista da missão. Todas as virtudes trazem em seu bojo um aspeto construtivo da vivência comunitária, porém é evidente que a mansidão entra em jogo por seus próprios valores e porque a comunidade se faz mediante relações plenas de conteúdo humano, cristão e vicentino. Devem ser expressões de pessoas que se estimam, se querem e se entreajudam. Toda atitude dura, de rechaço, de desprezo, pode ser superada precisamente pela prática da mansidão.

b.    Dimensão Humana: A vivência da mansidão no aspeto humanitário ajuda-nos no processo da aceitação e compreensão da cultura do outro, nos colocando num processo de crescimento junto ao diferente, abrindo-nos à dinâmica da inculturação, educando-nos no processo da complementaridade. No trabalho junto aos mais pobres essa abertura é essencial para uma autêntica inserção popular.


c.     Dimensão Espiritual: Viver a virtude da mansidão no aspeto espiritual compromete-nos a inspirarmos na mansidão divina para com o seu povo na caminhada da história da salvação. Remete-nos à práxis da paciência histórica mediante a atitude do Criador para com as suas criaturas. Sem dúvida, um tema relacionado com a mansidão é o da hospitalidade, que é uma característica que deve distinguir um Vicentino: uma pessoa acolhedora; uma pessoa que está atenta às necessidades dos outros, especialmente dos marginalizados e transeuntes.

d.    Dimensão Intelectual: A mansidão causa a paz e cria melhores condições para o discernimento. A importância que tem, moral e espiritualmente falando, o cultivo da mansidão, é que livremente, permite-nos ver a importância da paz interior e exterior como condições para um bom discernimento. Se não há paz interior, tranquilidade e serenidade, a opção sempre é suspeitosa e moralmente imperfeita. Portanto, a mansidão é uma ferramenta que nos ajuda a buscar e defender a verdade, favorece a busca incansável do discernimento no serviço aos pobres.


e.    Dimensão Comunitária: A vida em comum, se não está animada pela mansidão, se torna insuportável. É evidente que é difícil conviver com pessoas irritáveis e duras. A condescendência pode ser uma expressão indubitável de mansidão. São Vicente disse o seguinte sobre a condescendência: “Em uma comunidade, é necessário que todos os que a compõem e que são como seus membros sejam condescendentes uns com os outros. Com esta disposição, os sábios têm que condescender com a debilidade dos ignorantes, nas coisas em que não há erro e nem pecado. Os prudentes e sábios devem condescender com os humildes e simples. E com esta mesma condescendência, não só temos de aprovar os pareceres dos demais nas coisas boas e indiferentes, senão incluso preferirmos aos nossos, crendo que os demais têm luzes e qualidades naturais e sobrenaturais maiores e mais excelentes do que nós. Porém temos de evitar muita condescendência com os outros em coisas más, pois isto não seria virtude, senão um defeito, que proviria da libertinagem de espírito, ou de nossa covardia e pusilanimidade” (SV XI,758).

f.     Dimensão Apostólica: A apostolicidade da virtude da mansidão consiste basicamente em centrar nossas pregações no discernimento da procura da justiça e da paz que brotam da Palavra de Deus. Neste sentido, convém estar convictos de que nossas atitudes de bondade e coerência convencem muito mais as pessoas do que sermões, muitas vezes carregados de sentimentos contraditórios e moralismos exagerados. Nossas atitudes evangelizam mais que nossas palavras. Por isso mesmo, elas necessitam estar imbuídas da sensibilidade social na defesa incondicional dos direitos da pessoa humana, sobretudo dos mais pobres e excluídos.
No final desta reflexão sobre a virtude da Mansidão, vejamos mais algumas palavras do mestre Vicente de Paulo: “Não há pessoas mais constantes e firmes no bem que aqueles que são mansos e pacíficos; pelo contrário, os que se deixam levar pela cólera e pelas paixões são geralmente muito inconstantes, porque agem por impulsos e ímpetos. São como as correntezas que só têm força e impetuosidade nas chuvas, mas secam logo depois de ter passado o temporal, enquanto os rios que representam as pessoas pacíficas caminham sem ruído, com tranquilidade, sem jamais secar” (SV XI, 752).
4.      MORTIFICAÇÃO

Por esta virtude somos interpelados a morrer para nós mesmos. É a virtude que pede que nos entreguemos totalmente, pensemos primeiro nos outros, pensemos especialmente nos Pobres antes de pensar em nós mesmos. Esta virtude educa-nos para o altruísmo em detrimento do nosso egocentrismo.
Assim nos diz São Vicente: “Os santos são santos porque seguem as pegadas de Jesus Cristo, renunciam a si mesmos e se mortificam em todas as coisas” (SV XII, 227).
a.    Eixo Vicentino: Em tempos de busca de refundação da Vida Consagrada, urge-nos enquanto vicentinos aprofundar o carisma que nos identifica no mundo e retomar nossas tradições fundantes, bem como nossas constituições, nossos bons costumes como alimentos sólidos em vista de um testemunho mais autêntico na humanidade hodierna.

b.    Dimensão Humana: Embora nosso tipo de trabalho seja diverso do que a maioria da população, cabe-nos saber utilizar bem o nosso tempo e os meios que temos em nossas mãos em vista da nossa missão junto às pessoas. Em respeito e solidariedade ao trabalho duro das pessoas para sobreviver temos o dever moral de fazer bom uso de tudo o que dispomos. É preciso que utilizemos o tempo responsavelmente.


c.     Dimensão Espiritual: A oração pessoal e comunitária é uma fonte irrenunciável para um autêntico vicentino, por isso mesmo foi insistentemente recomendada por São Vicente. É muito importante rezar de modo disciplinado, dar à oração seu tempo, compartilhar com os irmãos sua espiritualidade, fazer dos sacramentos um alimento para a vida missionária.

d.    Dimensão Intelectual: Em contrapartida ao consumismo desenfreado da sociedade, é saudável viver a sobriedade diante do uso das coisas, levar um estilo de vida simples, educarmos numa vida ascética, por mais difícil que seja. Para conseguirmos dar passos neste sentido, é profundamente necessário que utilizemos em tudo o senso crítico dentro de uma corresponsabilidade evangélica.


e.    Dimensão Comunitária: A vivência comunitária exige-nos, progressivamente, profunda sensibilidade evangélica. Por sermos irmãos no Senhor, é de se supor que sempre nos sentiremos mais próximos uns dos outros. Portanto, que nossas amizades não sejam exclusivas nem excludentes. Hoje todos somos chamados a participar no processo de tomada de decisões e a viver uma obediência responsável. Interpela-nos expressar nossas opiniões. Isto gasta muito tempo e, às vezes, é penoso. Por isso mesmo é para alguns uma grande mortificação.

f.     Dimensão apostólica: Entendendo por mortificação renunciar a comodidades para nos doarmos para que o outro tenha mais vida, cabe-nos estar dispostos para responder às necessidades da própria comunidade e às do povo de Deus, sobretudo aceitando as mudanças de local geográfico e social, vendo nesta dinâmica de vida apostólica os apelos do Deus da Vida. Todos nós somos dotados de muitas qualidades e talentos. Colocá-los a serviço é sempre uma virtude. A apostolicidade da virtude da mortificação nos impulsiona a estarmos sempre abertos ao inesperado, pois com frequência somos interpelados a responder a novas situações, e isso extrai de nosso interior recursos pessoais que nem sabíamos que possuímos. Portanto, a abertura ao novo é profundamente necessária na espiritualidade vicentina. Bebamos mais um pouco na fonte de Vicente de Paulo sobre a virtude da Mortificação: “Somos firmes em resistir à natureza, pois se permitimos que alguma vez se cole em nós um pé, se meterá até quatro. E estamos seguros de que a medida de nosso progresso na vida espiritual está em nosso progresso na virtude da mortificação, que é especialmente necessária para os que hão de trabalhar na salvação das almas, pois é inútil que preguemos a penitência aos demais, se nós estamos vazios dela e se não a demonstramos em nossas ações e modo de nos comportar” (SV XI, 758-759).


5.     ZELO APOSTÓLICO

Podemos identificar o zelo apostólico com paixão pela humanidade. O zelo é a consequência de um coração verdadeiramente compassivo. Trata-se da paixão por Cristo, paixão pela humanidade e paixão especialmente pelo Pobre. O zelo é uma virtude verdadeiramente missionária. Expressa-se em forma de disponibilidade, de disposição para o serviço e a evangelização, mesmo quando as forças físicas já estão decadentes.
Assim sendo relacionado com o zelo está o entusiasmo, que leva à ação. Podemos entender o zelo como uma expressão concreta do amor efetivo, que é motivado pela compaixão, ou amor afetivo.
a.    Eixo Vicentino: O zelo é a quinta virtude característica e mais própria do missionário vicentino. O próprio São Vicente assim qualifica o “zelo pelas almas”: “Se o amor de Deus é um fogo, o zelo é sua chama. Se o amor é um sol, o zelo é o seu raio” (SV XII, 307-308). O Zelo Apostólico é o amor pela missão que dura a vida inteira. Vicente de Paulo trabalhou com constância até o final de sua vida. O Zelo é, pois, e antes de tudo, entusiasmo, e entusiasmo significa cheio de Deus, plenitude de Deus.

b.    Dimensão Humana: Zelo é amor ardente, uma disponibilidade para ir em qualquer lugar para falar de Jesus Cristo, ainda que em circunstâncias difíceis; disponibilidade para morrer por Ele. O testemunho do zelo apostólico inclui não só um profundo amor afetivo pelo Senhor e por seu povo, mas também deve se expressar no amor efetivo e no sacrifício. Para bem e melhor servir ao povo a nós confiado torna-se necessário o devido cuidado com nossa saúde e o equilíbrio do nosso ser.

c.     Dimensão Espiritual: O Zelo cria a disponibilidade de ir a todo o mundo levar, como Jesus Cristo e os apóstolos esse fogo de amor e de temor de Deus. O Zelo fortalece, aumenta a capacidade de trabalhar, capacita para sofrer tudo pela glória de Deus e salvação do próximo. O Zelo atualiza o comportamento do missionário, aceitando as exigências da Nova Evangelização: novos conteúdos, novas expressões, um novo ardor que não é outra coisa que a atualização do zelo apostólico ou da caridade apostólica. Para esta finalidade precisamos de uma sólida espiritualidade vicentina.


d.    Dimensão Intelectual: Zelo é amor fiel e perseverante. É fácil amar durante algum tempo. Mas amar durante toda a vida é mais difícil. Assumir compromissos permanentes é hoje mais difícil do que foi no século XVII, sobretudo porque muitos dos apoios sociais que ajudavam a sustentá-los naquele tempo, hoje desapareceram.

O Zelo hoje se manifesta como fidelidade. Ouro provado no fogo. Exige-nos encontrar criativamente novas maneiras de amar, apesar das mudanças bruscas. Como afirmava São Vicente: “O amor é inventivo até o infinito” (SV XI, 65).
O Zelo leva o missionário a adaptar-se e encontrar novas formas de servir aos pobres, apelando à capacitação profissional e especialmente através da formação permanente. Assim nos tornamos mais efetivos perante um mundo mais exigente.
e.    Dimensão Comunitária: Demonstra-se Zelo com o desejo de conseguir operários para a messe. Com o entusiasmo em comunicar a Palavra pela convivência agradável dentro e fora da comunidade interna. O amor é contagioso. O fogo se propaga. Um amor ardente busca se comunicar aos outros, atrai todos à mesma maravilhosa missão com que se está comprometido. O Zelo nos leva a compartilhar com alegria com outras pessoas, aproveitando os espaços formais e informais. O Zelo é amor fiel e perseverante.

f.     Dimensão Apostólica: O Zelo indiscreto se mostra hoje com o trabalho excessivo, muitas vezes sem critérios equilibrados. Hoje é tão importante como no tempo de São Vicente, o conhecer nossas limitações, aceitar nossa condição de seres criados, o desenvolver um estilo de vida equilibrado que inclui o descanso suficiente e o tempo de lazer. Também é importante manter-se em boa condição física para ter a energia que caracteriza o zelo. A ética do cuidado aplica-se interinamente ao nosso ser por causa da missão.
Outro aspeto da dimensão apostólica do Zelo é a busca de assumirmos responsabilidades compartilhadas, trabalho em equipe, decisões colegiadas. Esse caráter educa-nos para a valorização dos ministérios em suas múltiplas modalidades apostólicas e teologais.
     Enriqueçamos nossa visão sobre o Zelo Apostólico com palavras inquietantes de Vicente de Paulo: “Buscamos a sombra, não nos gosta de sair ao sol. Não goste tanto da comodidade! Na missão, pelo menos, estamos na igreja, a coberto das injúrias do tempo, do ardor do sol, da chuva, ao que estão expostas essas pobres gentes. E gritamos pedindo ajuda quando nos dão um pouquinho mais de ocupação que do ordinário! Meu quarto, meus livros, minha missa! Está bem! É ser missionário, ter todas as comodidades? Deus é nosso provedor e atende todas nossas necessidades e algo mais, nos dá o suficiente e algo mais. Não sei se nos preocupamos muito de agradecê-lo. Vivemos do patrimônio de Jesus Cristo, do suor dos pobres” (SV XI, 120-121).
Palavras Conclusivas:

As virtudes características nos ajudam a permanecer fortes diante de qualquer obstáculo que nos dificulte viver plenamente a vocação a que fomos chamados. Como sabemos, as virtudes características são aqueles valores evangélicos que São Vicente contemplava, de modo especial em Jesus Cristo. São virtudes de que sentiu necessidade e, ainda mais, que se esforçou por viver, compreender e por em prática durante toda a sua vida.

Façamos da oração de São Vicente para pedir o Zelo, nossa súplica missionária: “Ó Salvador, ó meu bom Salvador, apraza à vossa divina bondade livrar a Missão deste espírito de ociosidade, de busca das próprias comodidades e dar-lhe um zelo ardente por vossa glória, que faça abraçar tudo com alegria e que nunca a deixe recusar uma ocasião de vos servir ”(Repetição de Oração de 24 de julho de 1655).  

domingo, 19 de março de 2017

São Vicente e Portugal

S. Vicente em troca de correspondência com o Pe. Codoing superior de Roma, em 1644, dizia: fiquei bem impressionado com a vocação daquele povo e talvez faça chegar para lá um sacerdote para Portugal. Foi a evangelização do Oriente e as viagens dos missionários para Madagascar que fizeram Vicente pensar em Lisboa como lugar de passagem e decisão. O projeto não se realizou, mas mostra o interesse de S. Vicente por Lisboa. Claro que nessa altura Portugal fazia parte de Espanha, embora já se passa 4 anos da Independência em 1640.

O que apraz registar, me pareceu que foi a partir desta altura, mais propriamente que os Padres Lazaristas começaram a afixar por Portugal. Remeto o pequeno texto deixando à vossa leitura atenta.
S. Vicente e Portugal
Uma carta de Vicente de Paulo para o Pe Codoing, supe­rior de Roma, dizia, a 12 de agosto de 1644: “Segundo me diz na sua última, se formos para Goa, poder-se-á fazer chegar todos os anos de Lisboa a Goa e de lá a Ispaáo. O que V. Rev. me diz da vocação para aqueles lugares im­pressiona-me, nomeadamente o caso das Índias. Já pensei num sacerdote e num clérigo para Portugal: e talvez os mandemos por ocasião da ida do embaixador que para lá val”
Foram poucas as relambes de S. Vicente de Paulo com Portugal. Recorde-se que nos primeiros 60 anos de vida de S. Vicente, Portugal esteva politicamente ligado á Espanha. Só a partir de 1640 Portugal existe como nação independen­te e, ainda assim, com dificuldades várias para se impor na Europa e em Roma.
Foi a evangelização do Oriente e as viagens dos missio­nários para Madagascar que fizeram Vicente pensar em Lisboa como lugar de passagem e decisão. O projeto a que alude a carta acima náo se realizou, mas mostra o interesse de S. Vicente por Lisboa.
A restauração da independência de Portugal em 1640 não teve apenas dificuldades militares. Também as teve diplomá­ticas. Madrid dificultou o reconhecimento da autonomia por­tuguesa por parte de Roma. O reatamento das relações diplo­máticas entre Lisboa e Roma e o provimento das Sés portugue­sas que iam vacando é o assunto ou “as coisas” de que se trata nesta carta de S. Vicente a Mons. Ferentili, de 16 de outubro de 1654 (SVP tomo V p.62):
“Recebi a carta e o livro que V. Ex. cia manda para o embai­xador de Portugal, em cujas mãos eu mesmo o entreguei e que e lê recebeu com muito respeito e testemunho de gratidão por V. Ex. cia. Daí tomei ensejo para lhe dizer duas pa­lavras sobre V. Ex. cia e da considerarão de que goza, tanto na corte de Roma como nesta, e isso, Monsenhor, em vista das coisas que o seu amo demanda em Roma e da exposição que deve fazer das mesmas que procura. Não abriu a carta de V.E. na minha presença, mas fez-me a honra de me dizer que desejava vir passar um dia inteiro connosco em S. Lázaro, para me dar a honra de falar mais á vontade. Se tal honra me conceder, pode estar certo, Monsenhor, de que nada esquecerei do que julgar a propósito dizer­-lhe para seu serviço”.
O embaixador de que se Pala aqui era D. Francisco de Sou­sa Coutinho (cf Hist. Diplomática de Portugal, vol I, 144)
Igualmente digna de nota é a carta que, de Madagascar, escreve o P. Étienne a S. Vicente, em 1 de março de 1661. “bem necessário seria que todos quantos destinardes para as Índias (refere-se a todo o Oriente) soubessem a língua portuguesa, porque é entendida em toda a parte, e quase não há negros, sobretudo nas Índias, que a não falem. E o que tenho ouvido dizer a toda a gente e o que eu mesmo tenho observado”. S. Vicente não leu esta carta, mas ela mostra que Portugal não era desconhecido para o santo.
Lazaristas em Lisboa
Na viagem (sem retorno) que os missionários faziam para Madagascar, passavam ao largo da costa portuguesa. Apenas a quinta expedição, que saiu de Nantes a 14 de Marco de 1658 e composta pelos Pes. Le Blanc, Arnoul, Desfontaines, Daveroult, o clérigo Delaunay, um irmão coadjutor e dois negros que tinham sido catequizados em S. Lázaro e agora regressavam á sua terra natal, aportou a Lisboa.
Uma tempestade avariou o barco (outra versão diz que foi assaltado por piratas), que oito dias depois aportou a Lis­boa, por avaria. Os missionários foram acolhidos no palácio do Conde de Óbidos (hoje, edifício da Cruz Vermelha), sobranceiro ao Tejo. Reparadas as avarias o barco seguiu via­gem com os missionários, menos o Pe Daveroult que, certamente, por doença não embarcou. Os Condes de Óbidos, D. Vasco e D. Joana, hospedaram e trataram carinhosamente os primeiros lazaristas em Portugal. O Pe Daveroult ficou em Lisboa até meados do ano seguinte, 1659 (cf. duas cartas em SVP, Coste Vol. VIII).

domingo, 5 de março de 2017

A Hipólito Fortoul e Huchard

   Lião, 15 de Janeiro de 1831

   Meus caros Amigos

   Devo uma carta a Fortoul, a H ... uma resposta e o que queria dizer a um, tinha necessidade de o dizer também ao outro. Aliás, estais suficientemente ligados para não terdes segredos entre vós. Recebeis, pois, apenas uma carta, mas ela será grande ampla, cheia de palavras, senão de pensamentos; tereis uma boa conta. 

   Pois bem, a carta de H ... informou-me de que gozais ambos de muita boa saúde; felicito-vos por isso: a alma esta muito mais à vontade quando o corpo se sente bem disposto e estuda-se com muito maior facilidade, perseverança e resultado quando a dor não acomete de manhã à noite com as suas importunidades. Falo disso com algum conhecimento. 
   Mas, se os vossos órgãos passam bem, se o cérebro está livre, parece, pelas cartas do amigo H ..., ser a vossa alma que sofre, o vosso pensamento que está doente, o vosso coração que se inquieta na expectativa das coisas vindouras: suspensos entre um passado que se afunda e um futuro que ainda não acontece, vós votais-vos tanto para um, afim de lhe dirigir um derradeiro adeus, como para outro, afim de lhe perguntar: quem és tu? E como ele não responde, esforçais-vos por penetrar os seus mistérios, o vosso espírito agita-se em mil sentidos, corrói-se, devora-se e daí resulta um mal-estar invencível, inexprimível. No meio destes trabalhos intelectuais, no meio desta agitação profunda que, como vós, toda a capital experimenta, vós pensais neste pequeno Ozanam, antigo camarada de colégio, hoje pobre praticante de funcionário notarial, magro discípulo da filosofia e quereis saber o que ele pensa, o que pensa em torno dele.
   O que se pensa à minha volta? Confesso que teria bastante dificuldade em relatá-lo. Creio, no entanto, que, falando de modo filosófico, na província não se pensa, ou pelo menos pensa-se muito pouco. Vive-se uma vida industrial e material; cada um trata da sua comunidade pessoal, do seu bem-estar particular; e depois, quando o cavalheiro está satisfeito, quando o cofre-forte está repleto, faz-se política em torno das lareiras ou das mesas de bilhar, fala-se muito de liberdade sem nada compreender do assunto, louva-se a conduta da guarda nacional e das escolas nas jornada de Dezembro, mas ninguém se importa com os protestos, as proclamações dos senhores da Escola de Direito; é-lhes censurado quererem governar o Governo e tentar implantar a sua pequena república no meio da nossa monarquia. A ordem material, uma liberdade moderada, pão e dinheiro, eis tudo o que se quer; está-se cansado das revoluções, deseja-se repouso; numa palavra, os nossos homens da província não são nem homens do passado nem homens do futuro; são homens do presente, os homens da balança, como diz a Gazeta.

   São estas as minhas companhias; e quereis então que vos diga o que penso, eu pobre ananzinho, que apenas vejo as coisas de longe e através de versões muitas vezes enganadoras dos jornais e dos raciocínios ainda mais absurdos dos nossos políticos, como através de uma lupa nociva? Cercado como estou por mil opiniões directamente contraditórias, que assaltam sem cessar os meus ouvidos com os seus argumentos recíprocos, já construí vinte sistemas, dos quais nenhum pode manter-se; fiz cem conjunturas que os acontecimentos vieram desmentir: e agora eis que, cansado de politizar, de conjecturar, vejo mudar a charada em acção e espero que digam bem alto a palavra do enigma.
   Entretanto, ter paciência, ler as notícias para saber simplesmente o que nos sucede, conserva-me tanto quanto possível fechado na minha individual, desenvolver-me à parte, estudar muito, agora fora da sociedade, para depois poder aí entrar de modo mais vantajoso para ela e para mim: eis o plano que tive necessidade de formar, que M. Noirot me encorajou a executar e que vos aconselho a adoptar também meus bons camaradas, pois em consciência nós estamos ainda muito verdes, não estamos ainda alimentados pela seiva vivificante da Ciência para poder oferecer frutos maduros à Sociedade.      Apressemos-nos e, enquanto a tempestade derrubar muitas sumidades, cresçamos na sombra e no silêncio até nos encontrarmos homens feitos, cheios de vigor, quando os dias de transição houverem passado e alguém tiver necessidade de nós.
   No que me diz respeito, tomarei o meu partido, tracei a minha tarefa para a vida e, na qualidade de vosso amigo, devo dá-la a conhecer.
   Como vós, sinto que o passado cai, que as bases do velho edifício estão abaladas e uma terrível sacudidela mudou a face da terra. Mas que deve sair destas ruínas? A sociedade deve manter-se envolvida nos escombros dos tronos derrubados, ou deve antes reaparecer mais brilhante, mais jovem e mais bela? Veremos novos caelos et novam terram? (céus e uma nova terra?). Eis a grande questão.    Eu, que acredito na Providência e não desespero do meu país, como Carlos Nodier, creio numa espécie de palingenésia. (renascimento). Mas qual será a sua forma, qual a lei da sociedade nova?           Não tento decidi-lo.
   No entanto o que eu creio poder assegurar é que há uma Providência e que esta Providência não pôde abandonar durante sei mil anos criaturas racionais, naturalmente desejosos do verdadeiro, do bom e do belo, ao meu génio do mal e do erro; que, por consequência, todas as crenças do género humano não podem ser extravagâncias e que houve verdades da parte do mundo. Trata-se de reencontrar estas verdades, de as desprender do erro que os envolve; é preciso procurar nas ruínas do mundo antigo a pedra angular sobre a qual se reconstituirá o novo. Seria pouco mais ou menos como estas colunas que, segundo os historiadores, foram levantadas antes do dilúvio para transmitir o depósito das tradições aos que sobrevivam, como a arca sobre-nadava através das águas, levando com ela os pais do género humano.

   Mas esta pedra de esperança, esta coluna de tradições, esta barca de salvação, onde encontrá-la? Entre todas as ideia da antiguidade, ou desenterrando as únicas verdadeiras, as únicas legítimas? Por onde começar? Por onde acabar? Aqui detenho-me e reflicto: a primeira necessidade do homem, a primeira necessidade da sociedade são as ideias religiosas: o coração tem sede do infinito.
   Aliás, se há um Deus e se já homens, são necessárias relações entre eles - Portanto uma religião; - por consequências, uma revelação primitiva; - por consequência ainda, há uma religião primitiva, antiga de origem e por isso mesmo essencialmente verdadeira.
   É esta herança, transmitira do alto ao primeiro homem e deste aos seus descendentes, que eu estou interessado em procurar. Desloco-me, pois, através das regiões e dos séculos, removendo a poeira de todos só túmulos, investigando os escombros de todos os templos, exumando tos os mitos, desde os selvagens de Koock até ao Egito de Sesostris; desde os Indianos de Vishnu até aos Escandinavos de Odin. Examino as tradições de cada povo, pergunto-me a sua razão, a sua origem e, ajudado pelas luzes da Geografia e da História, reconheço em toda a religião dois elementos bem distintos: um elemento variável, particular, secundário, que tem a sua origem nas circunstâncias de tempo e de lugar nos quais cada povo se encontrou e um elemento imutável, universal, primitivo, inexplicável pela História e pela Geografia. E como este elemento se encontra em todas as crenças religiosas e aparece tanto mais inteiro, tanto mais puro quanto se remonta a tempos mais antigos, daí concluo que só ele reinou nos primeiros dias e que constitui a religião primitiva. Daí concluo, por consequência, que a verdade religiosa é a que, espalhada por toda a terra, se encontrou em todas as nações, transmitida pelo primeiro homem à sua posteridade, depois corrompida, misturada a todos as fábulas e a todos os erros.
   Certamente protestais, zombais da temeridade deste pobre Ozanam, pensais na rã de La Fontaine e no ridículus mus de Horácio. Como quiserdes! Também eu me admirei da minha ousadia; mas que fazer? Quando uma ideia se apoderou de vós há dois anos e superabunda na inteligência, impaciente por expandir-se no exterior, é possível retê-la? Quando uma voz grita sem cessar: faz isto, eu quero-o! pode-se dizer~lhe se cale?
De resto, comuniquei o meu pensamento a M. Noirot, que muito me encorajou a cumprir o meu plano. E como lhe confidenciei que temia achar a carga demasiado pesada para mim, assegurou-me que encontraria bastantes jovens estudiosos prontos a ajudar-me com os seus conselhos e os seus trabalhos: estão pensei em vós, meus bons amigos. Queria ainda dizer-vos mais coisas, mas a saída do portador da carta não me deixa tempo. Em outra ocasião vos falarei da minha maneira de pensar sobre o São-Simonismo; ele aqui não vinga e em geral não é favoravelmente considerado.
   O meu pequeno irmão Charlot escreveu a H . . ., mas não tenho a sua carta para anviá-la.

   Adeus, (envio) muitas coisas para os camaradas de Paris; para vós, caros amigos, a amizade sincera do vosso companheiro de colégio.

A.F.OZANAM